Parte 6 (com ligações às anteriores)
Na prática, isto reflecte-se em aspectos como a obrigatoriedade de fazer uma saudação à entrada do local do treino (dojo) que, na sociedade ocidental, não faz qualquer sentido, já que o dojo não é visto como um local sagrado. Situação semelhante acontece no próprio ritual de saudação que tem lugar no início e no final de cada treino. Caso este seja realizado na sua totalidade, o que muitas vezes não acontece, fazer-se-á uma saudação, de joelhos, semelhante à que os muçulmanos realizam, àquele que é considerado o pai do karaté moderno, Gichin Funakoshi, falecido há décadas, ao treinador e aos alunos mais graduados, fazer-se-á uma espécie de meditação (mokutsu) extremamente mais breve do que o que deveria ser e gritar-se-á o Dojo Kun em japonês. Por trás deste ritual estão presentes aspectos como o respeito pelos antepassados já falecidos, a hierarquia inquestionável, os próprios princípios religiosos da meditação e a filosofia de vida que guia os japoneses, que não são implementáveis na sociedade contemporânea ocidental.[1] Também a forma de vestir (o quimono branco é obrigatório) e a importância dada ao conhecimento dos nomes japoneses das técnicas, palavras decoradas, mas cujo significado se desconhece, são exemplos dos fragmentos que promovem o exotismo da arte marcial, apesar de terem como objectivo manter a especificidade do karaté que o torna distinto dos desportos de combate ocidentais. Tal não significa, contudo, que, para um praticante experiente, estes elementos não tenham significado. O que importa aqui realçar é que o exotismo existe aos olhos do novo karateca, substituindo o misticismo que este esperava encontrar.
[1] Estas ideias são, elas próprias, estereotipadas. A verdade é que muitas delas já não têm significado no Japão de actualmente, fortemente influenciado pela globalização e, por conseguinte, pela ideologia ocidental.

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