Parte 1
Parte 2
Parte 3
Antes de tudo, torna-se, todavia, obrigatório explicitar o conceito de representação. Hartley (2002/2007: 202) define representações como sendo “palavras, imagens, sons, sequências, histórias, etc. que simbolizam ideias, emoções, factos, etc.”, acrescentando que “envolvendo as representações inevitavelmente um processo de selecção no qual alguns signos são privilegiados em detrimento de outros, importa a forma como os conceitos [género, nação, idade, classe, etc.] são representados nos noticiários, nos filmes ou, ainda, em conversas do dia-a-dia.” Este processo de selecção é fulcral no entendimento dos filmes de artes marciais. Um filme está sempre inserido numa cultura que é, normalmente, simultaneamente produtora e consumidora do mesmo. Esta cultura já detém, ela própria, uma ideologia, não só em relação a si própria, mas também relativamente ao “outro”. No caso dos filmes marciais, habitualmente produzidos no Ocidente, o “outro” são os orientais. Tal como já foi explicitado, estes são associados, sobretudo, ao misticismo. Como os filmes de artes marciais são peça fulcral da indústria cinematográfica contemporânea, inserida num negócio em que se privilegia a cultura popular, existe a necessidade de responder à necessidade que público tem de visualizar esse misticismo. [Utilizo aqui cultura popular como sendo “uma cultura que é largamente estimada ou apreciada por muitas pessoas” (Storey 2006: 4). Simultaneamente, é considerada uma cultura “trivial, degradada e comercializada, que serve os interesses da classe capitalista.” (Athabasca Universityb).Por essa razão, neste tipo de filmes é normalmente dado um grande destaque a essa vertente, que se manifesta de duas formas diferentes, consoante a especificidade do filme. Nuns, acentua-se esse aspecto transformando um homem oriental vulgar, devido às suas capacidades técnicas obtidas através de um treino árduo física e espiritualmente, num super-herói semelhante a um deus. Noutro, o elemento místico é acentuado devido ao destaque dado às filosofias de um homem oriental, espiritualmente elevado e, por isso, física e tecnicamente superior aos seus contemporâneos, em geral, e aos seus inimigos, em particular. Esta incidência corrobora a ideia de que existe uma selecção no processo de representação dos orientais, que não só resulta dos estereótipos presentes na mente dos ocidentais relativamente aos orientais, que se reflecte no que procuram na visualização dos filmes de artes marciais, mas que também cria, ou fortalece, esses estereótipos nos próprios espectadores, cujo contacto com a dita cultura se resume, muitas vezes, aos filmes.
[To be continued]
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